domingo, 12 de outubro de 2008

Depois de um tempo


Eis um escravo nas mãos do algoz
Amarrado e sem ação
Amedrontado, tenta calar sua voz
Tenta livrar-se, mas é em vão.
Ouço o som humilhante da chibata
Vejo o sangue escorrer
Ouço o riso sarcástico de quem o maltrata
Vejo um inocente desejar morrer.
Depois de um tempo de açoite
Enche-se de rancor e ódio
Logo chega a noite
E o sangue na boca torna-se ópio.
Menino escravo
Agora não sente mais dor
Fita o carrasco
E ri sem temor
A desdenhar
Do seu cruel viver
Ou a delirar
Prestes a morrer.
Ri
Seu riso mais longo
Ri
Ofegante e irônico.
Os açoites da vida
Só conhece quem já sentiu as costas arder
Quem não encontrou saída
E no desespero quis morrer
Depois de um tempo
O coração começa a calejar
Imune a sentimentos
Não sente a dor, nem o sangrar
Não acredita mais em sonhos
Insiste em não se importar
Não se ilude com sorrisos
Perde o privilegio de amar
Percebe por um instante
Que as lagrimas não amenizam a dor
Mas tornam grande
Aquele que o arruinou
E mergulhado no que sobrou de si
Consegue achar uma lembrança do que é sorrir
Então num leve delírio
Ri do próprio sentimento
Ignorando seu martírio
Por vingança enlouquecendo.
12.10.2008

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